A Professora de Piano – La Pianiste

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SCHUBERT, ISABELLE E O SEXO

Por BRUNO GHETTI
Dirigido e escrito pelo austríaco Michael Haneke, baseado em romance de Elfriede Jelinek, A Professora de Piano causou polêmica, não apenas por ter sido o primeiro filme em anos a arrebatar três prêmios importantes no Festival de Cannes 2001, mas sobretudo por sua temática sobre sexo bizarro e insanidade. E, principalmente, pela crueza e implacabilidade com que o tema é tratado nas diversas seqüências da fita. Para o bem ou para o mal, o lançamento em vídeo e DVD é uma chance de se observar com mais atenção este filme, em diversos sentidos, mal resolvido, mas de rara clareza e austeridade na realização das cenas – que envolvem música clássica, voyeurismo, repressão materna e violência das formas mais variadas.

A Professora de Piano é uma história sobre a solidão de uma mulher, sua incapacidade de amar e de ser amada, tanto em termos afetivos quanto sexualmente. No filme, Isabelle Huppert é Erika Kohut, uma professora de piano quarentona, rígida e tirânica na profissão e sadomasoquista no sexo. Benoît Magimel é o jovem galanteador e sociável que flerta com ela. O rapaz se esforça para chamar sua atenção executando peças difíceis ao piano em um teste para ser aluno do conservatório de Viena (onde o filme se passa, apesar de falado em francês). Erika se irrita com o exibicionismo do moço, mas quando o talentoso jovem toca as teclas do piano, é como se tocasse o coração e o sexo da professora.

Na seqüência do teste, aliás, pode-se notar a qualidade da atuação de Isabelle Huppert e da direção – seca e direta – de Michael Haneke. Enquanto o jovem apresenta-se no piano, a professora tenta resistir com um semblante duro e um olhar de indiferença. Aos poucos, no entanto, vemos aquela mulher gelada e sem sentimentos se entregar, de uma maneira absolutamente sutil, fazendo pequenos gestos com os dedos e movimentos com os olhos; é como se presenciássemos o derreter de um iceberg a partir de um superaquecimento em seu interior – e assistir a tudo isso ao som de bem tocadas notas de Schubert pode levar um espectador de bom gosto a um real êxtase. Isabelle Huppert nos brinda com uma das maiores interpretações femininas do cinema dos últimos tempos (talvez de todos os tempos): nós a vemos impassível e fria nas suas aulas de piano, depois obsessiva na busca pela realização de suas perversões e por fim patética, implorando por ser amada, nem que para isso tenha que sofrer uma série de humilhações a que ela mesma se impõe, através de uma carta de baixa pornografia.

O filme traz uma dura e ao mesmo tempo interessante (apesar de às vezes por demais prolixa) abordagem sobre uma personagem à beira da loucura. Pois o real drama de Erika não é o simples fato de possuir desejos sadomasoquistas: é que ela sabe que se um dia sua sexualidade deixar de se restringir a práticas masturbatórias e passar para um real envolvimento físico-emocional com um homem, ela não saberá lidar com isso. Num momento-chave, a professora faz uma referência aos dias finais de Schumann, comentando sobre o pressentimento da própria loucura; ao dizê-lo, na verdade ela está referindo a seu próprio drama. Erika pressente que vai enlouquecer, por isso reluta em se entregar, mas acaba não resistindo, e sua perdição é apenas questão de tempo.

A Professora de Piano mistura em suas cenas simbolismo e hiper-realismo, e o resultado é muitas vezes repugnante, escatológico. Desperta na platéia sensações desagradáveis, muitas delas contraditórias – pode-se até sair ileso à cena em que Huppert mutila seu sexo com uma lâmina, ou quando ela urina ao presenciar o coito de um casal, mas quando a personagem esbofeteia a cara da mãe, ou lhe dá um beijo na boca e mais tarde revela: “vi seus pêlos pubianos”, sentimos vontade de rir, e ao mesmo tempo ficamos horrorizados pelo que vimos na tela e por termos achado graça daquilo. É um filme terrivelmente violento, tanto nos fatos da narrativa quanto em termos emocionais – apreciá-lo já é em si uma prática sadomasoquista do espectador.

A opção de Haneke por uma direção discreta e até certo ponto fria foi um acerto. Há seqüências imensas, sem cortes, que exigem enorme esforço e concentração dos atores, e o resultado é quase sempre impecável; Isabelle e Benoît foram eleitos os melhores atores do Festival de Cannes 2001, que laureou ainda o filme com o Grande Prêmio do Júri.

O filme, se não chega a ser uma obra-prima em seu todo, revela-se um êxito em suas seqüências isoladas. Elas permanecem fixas em nossas cabeças, não por seu caráter apelativo, mas por sua pungência enquanto imagens, enquanto ´cenas de cinema´; A Professora de Piano é uma experiência cinematográfica extraordinária. Seja pela beleza da música, pela complexidade do tema ou pela inexplicavelmente forte associação entre música clássica e perversão sexual. Ou, sem dúvida alguma, pelo mero prazer de observar a grande Isabelle Huppert, no auge de sua arte.

BRUNO GHETTI é jornalista e crítico de cinema formado pela UFRJ

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